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O sonho de ser Juanita

Juanita é uma mulher que sente-se sufocada entre filhos que exploram, emprego que aprisiona e uma vida medíocre, sem muitas perspectivas. Ela sente, no fundo que existe algo mais para ela em algum lugar. Tomada por um ímpeto de dar inveja a qualquer um que é massacrado pelo sistema, ela parte para uma jornada a fim de se conectar com ela mesma e com uma outra realidade mais digna para si. Não sabe para onde vai, mas vai. Não tem muitos recursos mas, mesmo assim, realiza uma viagem para longe e, como é de se esperar de um filme como este, romântico, os caminhos vão se abrindo e aparecem pessoas e situações que, de fato, a transformam. Com o seu jeito autêntico de ser, se desconstrói, entra em contato com a natureza, conhece rituais ancestrais e encontra o respeito e o amor, porém nada disso se compara ao encontro com ela mesma.

O filme é quase uma fábula pois histórias assim não acontecem, muito menos para uma mulher negra que resolve largar o gheto e aventurar-se sozinha pelas estradas do interior de um país gigante como os Estados Unidos (ou como o Brasil). Porém, é como um sonho, a possibilidade de conseguir colocar-se nesta pele, de quem tem a coragem de libertar-se. Quem nunca quis trocar de vida? Imaginar outras realidades? Desbravar desconhecidos e sair vitoriosa. Porque o papel de uma negra tem que ser sempre sofrido?
O enredo também coloca em evidência essa dicotomia cidade grande x cidade do interior, por um lado a falta de recursos, a violência e de outro a abundância, o calor humano e as forças naturais que reconectam as pessoas com elos originários. Em um ritual indígena Juanita se purifica, no encontro com novos amigos se fortalece para continuar a jornada sozinha por mais um pouco.
Juanita é um filme sobre rompimentos e reencontros, é aquela realidade que vemos longe nós hoje em dia, mas que nos alimenta de fantasias para seguir um pouco mais adiante.

NOSS AVALIAÇÃO:

Gênero: ficção/romance
Temática Social: universo feminino
Público-alvo: mulheres

Roteiro: 
(simples e de fácil leitura com momentos cômicos na medida)
Dramaturgia: 
(filme bem ambientado apesar de romantizar bastante o conteúdo que aborda.)
Aprofundamento da Questão Social: 
(toca muitas questões sociais mas o foco central é a autonomia da personagem pricipal que é uma mulher. Ela que rompe com o papel que lhe foi estabelecido para escrever sua própria história.)

 

Por Têmis Nicolaidis

 

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Filmografia Social – O Grande Tambor precisa bater!

Num momento em que se inicia o mês da Consciência Negra e que se elege presidente um racista confesso, nada mais certo que indicarmos uma produção nossa: O GRANDE TAMBOR.

Neste documentário em longa-metragem, denso, forte, há uma jornada que começa contando a história de um instrumento que foi a base do samba considerado gaúcho, mais cadente, mas que foi sumindo a partir da década de 1970 pela massificação cultural e pela “carioquização” do carnaval nacional. A partir disso, vamos retornando no tempo e observando as origens da ocupação do povo negro no território gaúcho – uma violenta narrativa de escravidão e genocídio, com sequestro de sua prática religiosa para consecução de objetivos mercadológicos do ciclo do charque.

O Grande Tambor recupera a ideia de que a Revolução Farroupilha não foi revolução coisa nenhuma e detalha o papel decisivo do infame Duque de Caxias – um herói da horda fascista vitoriosa no último pleito presidencial – no massacre de Porongos, apresentando a carta enviada aos comandantes brancos do batalhão conhecido como Lanceiros Negros.

Uma viagem de desmistificação. Assista atento, aberto a ouvir muita informação e prováveis contrapontos ao que você sempre entendeu como certo.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário etnográfico
Temática Social: racismo
Público-alvo: gaúchos interessados em sua história, pessoas de outros estados que acreditam que o Rio Grande do Sul é a Europa do Brasil e que aqui não há negros, músicos interessados em percussão, pessoas que gostam de carnaval e samba
Roteiro: 
(o caminho é bem delineado, a jornada vai detrás para frente no tempo e descortina as camadas históricas da contribuição do povo negro na cultura e realidade do Rio Grande do Sul e Brasil, mas pela duração pode ser considerado muito massante)
Dramaturgia: 
(a fotografia não é das melhores, com diferenças entre câmeras e personagens, sem definição de linguagem, o áudio também demandaria melhor tratamento, o filme parece esteticamente não finalizado, mas isso tudo pela opção de se valorizar o conteúdo, que tem uma boa construção emotiva, de momentos de respiro para reflexão e vários ápices catárticos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a razão da existência deste filme é exatamente ser uma obra que aprofunda a questão do racismo na construção histórico-cultural do Rio Grande do Sul, é pleno neste sentido)

Assista ao filme:

Confira todo o material do projeto aqui no site, clique aqui.

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social – Da evolução revolucionária, passando pelo gangsta rap até a ostentação…

Para onde mais vai o hip-hop? Bueno, de onde saiu, passou a ficar fácil de se saber. A série Hip-Hop Evolution, na sua segunda temporada no catálogo Netflix, traça o caminho de um tipo de música que nasce na periferia de Nova Iorque e ganha o mundo, explodindo no cenário pop – não sem antes construir seu lastro como uma expressão de uma camada de população amassada pelo racismo e as políticas de exclusão do sistema capitalista, que gera tanto uma violência interna, entre seus protagonistas, como externa, como uma trilha sonora de manifestações violentas que ocorreram pelos anos 1980/1990.

Pois o hip-hop passa muito rapidamente de uma “brincadeira” em festas do gueto estadunidense para se tornar por mais de 2 décadas na grande expressão da voz de quem está sofrendo com a violência policial diretamente. Uma galera passa a cantar e descrever o seu submundo, faz chegar aos recantos dos Estados Unidos a visão de que são pessoas que podem se comunicar – e com a intenção de responder – sobre os ataques que sistematicamente uma White America (América branca) tenta os impor. Daí surgem grupos como o N.W.A (Niggers With Atitude – Negros Com Atitude), já da costa oeste, straight out of Compton, diretamente saídos de um bairro violento da periferia de Los Angeles, explodindo as mentes e sendo alvos seguidos da “lei” com o grande clássico Fuck tha Police (Foda-se a Polícia). Era como muitos conseguiram responder às agruras concretas do racismo institucional.

O hip-hop também foi responsável por muitas vitórias da liberdade de expressão nos Estados Unidos. Grupos fudamentalistas sempre tentaram ao longo dos tempos calar seus produtores, mas após lutas longas em tribunais, a porta estava aberta para expandir o campo da poesia e do ritmo das ruas – e daí veio a libertinagem, a linguagem chula, a expressividade e agressividade sexual, que objetificava a figura feminina, mas a mantinha protagonista, até o surgimento da ostentação, já com umas 3 décadas de desenvolvimento, as figuras destacadas do hip-hop deixavam de parecerem pastiches de cafetões que se enchiam de correntes e de ouro como uma sátira para virarem exatamente essas pessoas, trocando a crítica social pela ode ao hedonismo sem limites – os negros, enfim, haviam chegado lá. Assista a essa sequência de uma seleção de músicas ano a ano e veja a transformação dos rappers. E para onde se vai agora?

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: racismo institucional, drogadição, machismo
Público-alvo: pessoas interessadas no multiculturalismo e fãs de hip-hop como uma identidade cultural de um extrato social
Roteiro: 
(delineia muito bem a linha temporal e a localização das expressões do hip-hop, esclarece bem a que estão servindo cada grupo retratado e nos guia a um processo evolucionário que vai explicando com boa dose de detalhes as relações estabelecidas em cada fase e/ou grupos)
Dramaturgia: 
(filmagem padrão de documentário contando com vários inserts de flash back e construção de caracteres artística do estilo hip-hop/grafite)
Aprofundamento da Questão Social: 
(dá para entender muito bem de onde vêm as pessoas e para onde elas estão se encaminhando, quais as relações sociais estabelecidas, o contexto social que estão inseridas e quais seus desdobramentos)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social – Atypical

Realmente é atípico, mas não deveria ser. E este é o maior mérito do seriado da Netflix (2 temporadas). Não o fato de trazer algo atípico à tona, porque o autismo não é atípico, mas por trazer à tona algo que sempre foi atípico de se falar.

Quem fala descompromissadamente de autismo, com certo conhecimento, sempre vai se lembrar de Rain Man (clique aqui), das atuações gigantescas de Tom Cruise e Dustin Hoffman, das contagens matemáticas do personagem principal e, enfim, da dificuldade de comunicação com o mundo “normal” que o personagem autista tinha.

Um filme que te deixava com pena – um dos piores sentimentos a se ter.

Pois o autismo não é raro, não é como aquele filme o retratou – não somente – e não é absurdo de ser absorvido pela sociedade, como é o que quer dizer o seriado Atypical.

O autismo seria mais um caso de bullying institucionalizado numa sociedade que é feita para desprezar tudo que não seja o padrão global imprimido diariamente nas telas da vida…

É difícil, é complicado, é um desafio aos pais?

Sim, como não?!

Mas não é impossível.

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NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama adolescente
Temática Social: autismo
Público-alvo: adolescentes e pais com filhos autistas
Roteiro: 
(segue o padrão de seriados adolescentes estadunidenses, a famosa fórmula high school, mas com tentativas de inserir temáticas controversas nos episódios, no entanto, o final, a lógica, é sempre a mesma: o fim é o conforto relacional)
Dramaturgia: 
(faltou profundidade em todas as atuações)
Aprofundamento da Questão Social: 
(por vezes – até demais -, o seriado vira um pastiche do high school estadunidense, com os clichês famosos de que em 3 anos de vida aquelas pessoas vão definir o resto de suas vidas e que se algo der errado ali, o drama é será infindável e intransponível… affffffff, se eu soubesse disso antes…)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social: Tear down the wall! O grito do Pink Floyd

Pink Floyd The Wall é uma das obras mais interessantes que já assiti. Apesar do resultado ser um desastre na relação entre o diretor Alan Parker e Roger Waters, o cérebro do Pink, a ponto de o diretor desconsiderar por completo seu trabalho, é um grande filme.

Uma viagem pela história do rapaz, Pink (Waters), uma crítica mordaz ao militarismo e ao capitalismo que o alimenta – da infância com a perda do pai, ao condicionamento na educação, à adolescência sem sentido e à adesão a um regime totalitário que parece preencher todos os seus vazios. O fim é melancólico.

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A arte, o ativismo e o posicionamento político são bem presentes e evidentes – e isso também acompanha a obra inteira do Pink Floyd, mas o filme é um grande grito, lançado em 1982 e sobre um período vindo da década de 1940, está mais atual do que nunca. Apesar do discurso direto e claro, há ainda muita mensagem subliminar que pode levar aos mais sensíveis e em estado psicotrópico alterado a epifanias que modificam suas vidas – eu, por exemplo, deletei meu Facebook e nunca mais retornei a esta rede social.

Ainda é importante mencionar que, para quem conhece o album antes do filme, se vai assistir a algo totalmente fidedigno, a sensação é a da materialização em imagens das sensações que se tem ao escutá-lo – para isso acontecer na plenitude, claro, é preciso entender o inglês, mas as animações grotescas também correspondem à sonoridade sensacional do rock progressivo (e progressista!) de Pink Floyd.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama musical
Temática Social: abandono com e sem ruptura de presença, drogadição, totalitarismo
Público-alvo: fãs do Pink Floyd
Roteiro: 
(muito bem executado para seguir o roteiro do próprio album, podemos classificá-lo como uma ópera moderna)
Dramaturgia: 
(uma mistura de clipe musical com filme e com desenhos, atores muito bem em seus papéis e interagindo com desenhos numa época em que a tecnologia era “tosca” para isso, mas pela estética adotada, funcionou muito bem)
Aprofundamento da Questão Social: 
(todos os temas retratados diretamente e com posicionamento bem claro, do abandono do menino ao que resulta de sua vida, constrói uma relação de causa e consequência bem crítica)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social: Mestre Borel – a ancestralidade negra em Porto Alegre

Certa vez ouvi alguém dizer que, para as culturas orais, os mais velhos são como os livros, pois carregam grande conhecimento e é com eles que se aprende.

Se isso for verdade, Walter Calixto Ferreira, conhecido como mestre Borel, era uma das mais completas enciclopédias para se pensar as religiões de matriz africana e diversas questões da história negra na Porto Alegre do século XX.

Me refiro a ele no passado, pois Mestre Borel faleceu no ano de 2011. Felizmente um pouco de sua sabedoria ficou registrada no documentário de Anelise Gutterres.

Além de contar a história pessoal do mestre e mostrar sua prática afro religiosa, o filme revela as transformações geográficas e sociais pelas quais a cidade de Porto Alegre passou no século passado.

Walter Calixto Ferreira nasceu em 1924 na cidade de Rio Grande. Com menos de 1 ano de idade, foi morar em Porto Alegre, justamente na região da ilhota.

Se você, assim como eu, conheceu uma Porto Alegre já aterrada, saiba que não foi sempre assim. Nas áreas centrais, havia diversos banhados, e o Arroio Dilúvio, que na época era um grande rio, separava os habitantes.

A memória de mestre Borel revela uma cidade na qual diversos arroios construíam arquipélagos e banhados. Nesses locais – dentre eles a Ilhota – moravam os negros de Porto Alegre.

Enquanto Borel fazia suas andanças, tendo morado no Rio de Janeiro durante alguns anos, Porto Alegre aterrava estas regiões centrais. Os negros, que residiam nestas áreas, foram removidos para o bairro Restinga.

Não por acaso, quando volta para Porto Alegre nos anos 1980, o mestre vai morar na Restinga. Lá, encontra diversos familiares e conhecidos da Ilhota, do Areal da Baronesa, da antiga Cidade Baixa.

Assim, fica perfeitamente exemplificado o processo racista e de gentrificação que removeu a população negra dos bairros centrais, como a Ilhota, e os colocou na Restinga, há mais de 20 quilômetros do centro da cidade.

Além de retratar este “embranquecimento” das áreas centrais da cidade, o documentário mostra as práticas religiosas afro-riograndenses. E neste âmbito, Borel é simplesmente mestre!

Não me considero um especialista em culturas de matriz africana, mas pelo pouco que sei, estas culturas valorizam as origens. Tanto que, neste contexto, é comum usar o termo “raiz” como adjetivo positivo. Por exemplo, um reggae raiz, um samba de raiz.

Como mostra o documentário, a avó de Borel veio da Nigéria e era Yoruba. Assim, a família manteve viva a religião dos Orixás, que sempre fez parte de sua tradição.

Mas não foi “somente” isso que lhe rendeu o título de mestre. O filme resgata muito bem a dedicação de Borel, que passou boa parte da sua vida fortalecendo a religião.

Esta dedicação se evidencia também nas cenas em que o mestre toca tambor. Tendo tocado desde a infância, Borel desenvolveu um método de usar as pontas dos dedos de uma mão- numa carícia suave- que constrói um som único.

O canto em Yoruba e os trajes religiosos também são maravilhosos. É claro que não são meramente estéticos; possuem significados dentro da prática afro religiosa. Mas, quem não participa destas religiões, e aqui me insiro novamente, pode simplesmente se deixar maravilhar com as cenas em que Borel toca seu tambor e canta para os Orixás.

Assim, o documentário é lindo e também tem potencial de alimentar muitas reflexões. Quem participa de religiões de matriz africana certamente vai aprender e se identificar mais, porém os leigos também podem pensar diversas questões.

O retrato das mudanças na cidade é incrível, pois não é um relatório frio e só com informações. Pelo contrário, é um testemunho de quem viveu a situação muito bem ilustrado com imagens antigas da cidade.

 

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: religiões de matriz africana.
Público-alvo: Livre para todos os públicos.
Roteiro: 
Segue a linha do tempo da vida de Borel. Há algumas idas e voltas- a narrativa começa em Porto Alegre, depois vai para o Rio de Janeiro e depois volta para Porto Alegre- mas que seguem a trajetória pessoal do mestre e são bem costuradas.
Dramaturgia: 
Relatos orais, cenas antigas, imagens de rituais religiosos, planos em que o mestre toca tambor e canta sozinho. Todos estes elementos e alguns outros dão o sabor de africanidade imprescindível a um filme como este.
Aprofundamento da Questão Social: 
Apesar de mostrar a remoção dos negros das zona centrais de Porto Alegre, o foco do filme é a vida do mestre e sua prática religiosa. Justamente por isso, a questão social não é tão aprofundada. Mesmo assim é bem interessante para se iniciar uma reflexão ou discussão em grupo.

Por Bruno Pedrotti

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Filmografia Social: LA 92, a cronologia do racismo contemporâneo

Este é um filme que DEVE ser assitido por todos. É uma história a ser contada a explicar as revoltas de 1992, que tomaram conta de Los Angeles, após a absolvição de 5 policiais que espancaram quase até a morte o cidadão Rodney King.

King é negro. A ação dos racistas foi totalmente filmada, uma sessão brutal contra uma pessoa indefesa e já rendida, que jamais ameaçou – impossível que não fossem condenados e presos, só que não. Estamos falando de policiais brancos contra uma pessoa negra. A lógica (até hoje) é a de que nada aconteça, afinal, o sistema é feito para proteger os brancos da ameaça negra. Mas de tão absurda que foi a decisão da justiça estadunidense, de tão evidente que a situação se punha pelo vídeo apresentado, tal escracho de realidade tomou por revolta uma população inteira. E eles foram às ruas e fizeram o que podiam naquele momento – finalmente se tornaram a ameaça negra.

Mas o filme é mais completo do que simplesmente o relato de 1992. Ele volta no tempo e paraleliza outras situações evidentes de racismo institucional ocorrendo nos Estados Unidos desde a metade do século XX. Constroi um caminho lógico – e óbvio – da fabricação desses conceitos e caminhos que acabam por explodir naquele ano. E você vai ficar refletindo, pensando em como as coisas incrivelmente se repetem e não modificam em um espaço de quase 100 anos, tentando imaginar, enfim, quando estourará a nova bomba desse tipo de conflito.

Por que insistir em trazer essas histórias dos Estados Unidos? Porque é imprescindível entender que no Brasil é EXATAMENTE a mesma coisa. Hoje, há um personagem perigoso, que representa uma mentalidade, prestes a assumir o controle do país – vencendo a eleição ou não. Os atos de racismo se espalham pelo país, e o sistema de justiça é incapaz de frear este nonsense, fazendo, inclusive, parte da tragédia – o branco STF inocenta o personagem de virar réu em caso evidente de racismo, uma juíza manda algemar uma advogada negra em pleno exercício de sua profissão, juíza inocenta e elogia o trabalho de 3 policiais que assassinaram uma criança negra de 11 anos… E os exemplos reais não vão cessar.

Lá, Donald Trump é este personagem. Os movimentos que vieram junto a ele são os mesmos daqui. A construção educativa e sociocultural do Brasil é a mesma implementada nos states, apenas com algumas décadas de diferença. E ISSO NÃO É OBRA DO ACASO.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: racismo
Público-alvo: TODO MUNDO acima dos 10 anos
Roteiro: 
(modelo clássico de documentário estadunidense, poderia ser cansativo, mas a sequência e costura dos fatos é muito bem realizada, a ponto de você ouvir no início uma narrativa imaginando ser de 1992 até se revelar que era na realidade os anos 1960)
Dramaturgia: 
(cenas fortes, cenas antigas, texturas de televisão em preto e branco e colorido esmaecido, que configuram uma linha dramatúrgica que dá sentido ao que se objetiva)
Aprofundamento da Questão Social: 
(dá para entender bem onde se promove e se constroi o racismo institucional, que segura numa escravocracia evidente toda uma população)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social – Big Mouth

Todas mães e pais presentes nas vidas de seus filhos vão passar por alguns momentos íntimos no mínimo interessantes. Lembrando inversamente, quando passamos por algumas fases, lá na nossa juventude de descobertas, há um período em que as coisas eram controladas por constrangimentos – estes, dogmatizados em fundamentalismos religiosos e de moral (de cuecas), tomavam características punitivas e faziam que uma fase como a entrada na adolescência pudesse se tornar um verdadeiro inferno.

E a sexualidade segue sendo um tabu. No momento em que o Brasil está, talvez a tendência seja piorar e muito para um bom grupo da população, porque a polarização política de momento está mostrando bem claramente que pelo menos uns 20% de pessoas não quer nem saber de discutir diversidade, opções, desejos e afins com crianças que precisam entender o mundo em que se está entrando. Não, preferem que se dê a eles um manual de bons costumes escrito há milênios, em contexto completamente abjeto e nem um pouco semelhante ao que estamos, quiçá até mesmo ficcional, e que se virem com os verbetes de certo e errado e que sejam punidos se cometerem deslizes. A isso se chama castração.

Big Mouth, disponível no catálogo Netflix, entra aqui como uma luva. Não há como não se identificar com a obra. Um desenho que segue um grupo de jovens entrando em fase de puberdade – apresentando dois demônios (masculino e feminino) que não estimulam os pequenos a fazer nada a não ser responderem a seus desejos e os deixam inclusive confusos -, é o tesão pelo tesão, não é uma questão de gênero. E os garotos e garotas vão descobrindo esta fase e se experimentando, sem pudores, cheios de dilemas comuns.

Quisera eu ter tido a oportunidade de assistir a esta série nos anos 1990…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia/animação
Temática Social: sexualidade, infância e adolescência
Público-alvo: por nostalgia e por momento, mães e pais com filhas e filhos em fase de crescimento, por óbvio, as filhas e filhos em fase de crescimento (dos 10 aos 15 anos)
Roteiro: 
(sagacidade, ironias e muito sarcasmo bem aplicados)
Dramaturgia: 
(animação simples, justificada e com uma interpretação de vozes de um grupo muito bom de comediantes estadunidenses)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a sexualidade ser tratada na infância, em fase de puberdade, é extremamente importante, Big Mouth apresenta um discurso fácil de se entender e retira pesos de assuntos profundos, vai longe em alguns momentos, mas mostra também que às vezes as coisas podem se resolver de uma forma muito simples e que “monstros” nem sempre são monstruosos)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social – Mad Men: os maus homens

*pode conter spoilers

Um seriado de homens grosseiros, machistas, fumantes e alcoólicos nada anônimos. Um mundo chauvinista do meio da propaganda estadunidense nos anos 1960 – assistir a um episódio pode ser um grande desafio. Não cheguei a medir, mas não creio que se passe mais de 1 minuto na série sem que alguém acenda um cigarro ou sirva-se de um drink – cowboys e on the rocks para todos os lados.

São 7 temporadas disponíveis no catálogo Netflix, esta resenha delimita-se a comentar o conjunto até a metade da quinta.

Até o terceiro ano, a narrativa nos embebia e não fazia nuvem de fumaça com os acontecimentos dos anos 1960 de uma Nova Iorque cosmopolita e explodindo no marketing agressivo. Passa-se por uma eleição que Nixon perde para Kennedy, as influências que Jacqueline Onassis e Marilyn Monroe passam a ter na vida das americanas – entre tantos outros aspectos interessantes que montam um cenário que não parece muito ser um pano de fundo, mas, sim, dão a impressão que o personagem principal de Mad Men não são loucos homens, mas o próprio Estados Unidos.

Isso torna-se bastante interessante, porque se está em um ambiente que se está tentando a todo o custo “vender, vender e vender!” sem escrúpulo algum – bem, creio não ser muito diferente do mundo publicitário atual, não é mesmo? Mas para quem busca algum tipo de informação sobre massificação cultural ou estratificação de uma sociedade modelo e dominante, as referências apresentadas são muito interessantes, sim. Mesmo que as mensagens estejam não tão explícitas, e o seriado sirva também para alimentar o ego de misóginos e seres desprezíveis, pois romantiza personagens e relações de exploração, sem necessariamente “penalizar” o mau – típico clichê das estorietas estadunidenses.

Ou seja, aqueles que procuram enxergar para além do aparente, terão subsídios suficientes para observar o machismo e o racismo em sua essência, apesar de que, a partir da terceira temporada, Mad Men vá virando o fio paulatinamente, cada vez mais, para uma novela focada nas desventuras de seu personagem principal, o gênio criativo(?) Don Drapper – enche o saco mesmo e vai ficando cada vez mais difícil perceber a importância dos fatos que vão ocorrendo ao longo de uma década tão importante – a efusão da luta pelos direitos civis da população negra, a liberação sexual, o movimento pop culture, entre tantos outros -, que moldou um perfil sociocultural, o famoso american way of life, exportado como o ideal ao mundo todo. Infelizmente, então, aquilo que parecia ser um diferencial passa, enfim, a ser mero pano de fundo para uma narrativa piegas e cheia de truques típicos de um mero folhetim.

Eu assistirei até o final das 7 temporadas, vamos ver se vamos até a
Lua sem um câncer de pulmão ou de estômago…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama
Temática Social: machismo, misoginia, alcoolismo, consumo de drogas, racismo, mais valia
Público-alvo: homens brancos de meia idade (para sentirem-se bem com seus próprios preconceitos), pessoas com interesse na construção sociocultural dominante e mulheres (para sentir raiva e perceber como a sutileza de algumas relações e ações permeia e mantém uma cultura de submissão)
Roteiro: 
(o primeiro terço muito bom, a partir de então, segue a “fórmula
mágica” folhetinesca)
Dramaturgia: 
(caracterização dos personagens e cenários é muito boa, mas o roteiro faz com que se repita muito situações, expressões, tipos…)
Aprofundamento da Questão Social: 
(vários temas importantes que vão paulatinamente ficando de lado para que a audiência passe somente a acompanhar a vida de Don Drapper)

Por Gustavo Türck

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Moana: o contramito da princesa

*pode conter spoilers

Se soubéssemos, antes de ver nascer um filho, o tamanho da responsabilidade e da energia que é preciso para garantir, sem garantias, que este novo ser humano viva bem, talvez nós adultos não tivéssemos filhos.

Se eu fosse religiosa, talvez eu dissese a frase: Deus sabe o que faz. Como não sou, fico muito feliz por ter tido a oportunidade de ser mãe e ter de enfrentar todos os desafios e percaussos que a maternidade apresenta, isso me faz uma pessoa mais forte e mais evoluída. Se eu não fosse mãe, tenho certeza que também encontraria este caminho, já que não acredito que uma mulher só é completa se engravidar. Hoje em dia, a gravidez não é simplesmente natural, é uma questão de escolha, e isso deve ser respeitado. Coloco isso pois tem muito a ver com o que quero trazer neste texto – as imposições. Vivemos numa sociedade de imposições, muitas imposições. Tantas que às vezes paro e reflito o quanto elas são ultrapassadas e me sinto assistindo a um seriado da década de 60. Ainda somos mega machistas, assustadoramente, apesar de uma sutil evolução. Isso é especialmente preocupante quando se tem uma filha mulher.

Quando a gente gera uma criança e traz ela para este mundo, começamos a viver muitas alegrias, descobertas e euforias. Vemos também o controle sair totalmente das mãos. Ver minha filha falar que o sonho dela é ser uma princesa me causa arrepios e vai contra tudo aquilo que eu desejo para ela – a princesa da nossa referência cultural é branca, heterossexual, magra, passiva e delicada. Alguns podem falar que é muito radical da minha parte e que isso é só uma fantasia. Sim, seria se ao lado deste tipo de princesa tivessem outros tipos como a sapa, a gorda, a “feia”, a pobre ou uma princesa negra e até mesmo aquela que não pensa em ter um príncipe e não quer por convicção ter filhos. Aí, sim, ficaria mais tranquila em ouvir ela dizer que tem o sonho de ser princesa. Mas o perfil que reina e dita as regras do universo feminino infantil e provavelmente vai determinar a subjetividade dessas futuras mulheres e, também, o seu redor definitivamente é o “loira de olhos azuis”, rica e famosa, adorada.

Mesmo assim, tivemos a sorte de ter uma filha numa época em que surgem iniciativas como os grupos Palavra Cantada e Mundo Bita. Sei que devem ter inúmeros outros, mas estes tornaram-se massivos e conseguiram emprestar novas letras, sons e cores para a infância, que antes só conhecia as mesmas músicas, que se não eram racistas, colocavam muito medo, falavam em agredir felinos ou em casamento – até onde eu sei, criança não namora, então, por que deveria sair cantando sobre casamento? Acho simplesmente desnecessário, mas, enfim, isso sempre foi cultural e passado por gerações. Parece besteira querer questionar isso. Assim como parece uma grande besteira querer mudar o foco da criança na hora de assistir televisão.

Pois é aí que entra Moana. Um filme da Disney, a fábrica de princesas. Confesso que até agora estou tentando entender a “pegadinha”…

Moana é a filha do chefe de uma tribo que habita uma ilha. É uma menina que nasceu predestinada a governar com uma regra bem clara: ninguém pode passar dos recifes, pois existe a maldição de que ninguém voltaria de lá. Então, a vida para o povo desta ilha só acontece ali, são auto-suficientes, cantam, dançam, se bastam. Mas Moana escuta um chamado que vem do mar, e isso é mais forte para ela. Tem uma relação muito forte com sua avó que, desde muito cedo, conta as histórias do além mar, a lenda de que Maui, um semi Deus, roubou o coração da Deusa da natureza, Te Fiti, e espalhou a maldição que ronda a região. Ela é a “louca” da ilha, porém guarda o segredo de que, na verdade, aquele povo sempre foi nômade antes dessa maldição chegar. Ela é a guardiã, também, do coração de Te Fiti, que chegou pelo mar quando Moana era um bebê. No auge da crise, quando os coqueiros começaram a adoecer, e os peixes sumiram, a avó de Moana a entrega o coração e diz para ela buscar Maui.

Moana vai. Contra tudo e todos.

É um filme lindo porque fala da transformação de uma menina em mulher. E, para isso, ela precisa ter muita coragem, principalmente porque, no início da aventura, ela enfrenta o patriarcado, algo que, na vida real, significa um grande peso. Largar a família, desobedecer o pai, sair atrás de incertezas… Porém essa força interna é alimentada por sua avó e ajudada por sua mãe – e isso é mais do que suficiente.

No que diz respeito ao Maui, a figura masculina principal do filme, não existe nenhuma tensão sexual entre os dois, a relação é de amizade e aprendizado, sempre com Moana puxando o barco, tomando a frente, forçando a barra. Ou seja, se não fosse Maui ela não conseguiria devolver o coração da Deusa, mas, se não fosse Moana, ele até hoje estaria numa ilha, náufrago, sozinho e sem poderes. Se esse desenho surgisse há algumas décadas talvez fosse um escândalo…

Moana é uma aborígene, não usa jóias, vestidos rosa ou sapatos. Mas, para mim, ela é a princesa mais linda que pode existir, porque ela é livre. E é esse tipo de princesa que eu gostaria que fosse um exemplo para a minha filha.

Ainda assim, existem muitos filmes de princesa tradicionais, quase todos na verdade. Moana é uma exceção.

O que a grande parte das pessoas não enxerga é que o conteúdo que chega até nossas crianças é altamente ideológico. Ensina que o branco é lindo. Sim, o branco é lindo, mas para ele ser lindo o negro não deve ser diminuído. A mulher é graciosa. Sim, a mulher é graciosa, mas essa graça não deve a deixar num pedestal de cristal imóvel somente esperando um príncipe e um filho para dar sentido a sua vida. O amor de um homem e uma mulher é emocionante. Sim, é emocionante, mas não deve ser o exemplo de amor mesmo para quem é homossexual. Existe uma violência nas entrelinhas da cultura, que serve para a perpetuação do machismo, e esse mecanismo só funciona porque inicia seu trabalho na infância, e essa violência é a redução da diversidade, intrínseca à humanidade e à natureza.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação/aventura
Temática Social: protagonismo feminino
Público-alvo: crianças a partir de 3 anos e seus pais e avós, tios e tias
Roteiro: 
(segue o padrão enlatado Disney, com final previsível)
Dramaturgia: 
(desenho perfeito, muito bonito mesmo, performance das vozes – em inglês – é fantástica, músicas – em inglês e português – são bem interessantes e “grudam” na mente)
Aprofundamento da Questão Social: 
(por carregar uma mensagem tão importante para crianças, em uma fase que muitos significados são impressos nas personalidades dos pequenos, e por estimular a família a modificar a cultura tradicional do mito da princesa)

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras